Entrevista com Rubens Emerick Gripp:

O psicólogo Rubens Emerick Gripp é responsável pelo Grupo Teatro Novo, um grupo de teatro formado por deficientes mentais. Mesmo sem saber ler nem escrever, os alunos desenvolvem peças espetaculares na base do improviso. Contatos com Rubens  podem ser obtidos por telefone: (21) 2616-3076.

 

 

Leonardo Melo (LM): Conte-me um pouco da história do Grupo Teatro Novo.

Rubens Emerick (RE): O Grupo Teatro Novo é um grupo de teatro formado por deficientes mentais. Este trabalho começou em 1983 com outro nome: Grupo Sol. Eu fui trabalhar na APAE, mas chegando lá, não consegui desenvolver um trabalho de psicologia. Eu comecei como estagiário de Educação Física. Logo depois, porém, surgiu uma vaga e eu me tornei psicólogo da APAE. Uma cena que eu via muito era os pais trazendo os filhos de mãos dadas. Isto desde crianças pequenas até os maiores de 16, 17 anos. Então eu achei necessário reverter um pouco este quadro. Então eu  comecei a sair quase que diariamente com eles na rua. No máximo dois ou três. As escolas fazem isso com grupos grandes, mas eu não podia fazer isso com eles porque chamam  a atenção das pessoas.  Imagine só você entrar com 20 portadores de Síndrome de Down num lugar qualquer. É complicado. Quando você sai com um ou dois, as pessoas pensam que eles são seus filhos, irmãos ou primos. Com isso não chamamos muita atenção. E também acaba sendo melhor para eles devido à maior possibilidade de aprenderem alguma coisa, é bem mais fácil ensinar dois do que ensinar vinte. Então eu procurava ensinar coisas tipo como atravessar a rua, como se paga uma conta no banco, como se entra num ônibus e outras coisas deste tipo. Então, toda vez que eu chegava da rua, eu juntava o pessoal todo e nós conversávamos sobre o que víamos. A situação que a gente passava na rua, a gente transformava em psicodrama, em teatro. Foi uma coisa bem natural, com essas conversas, nós acabamos fundando o Grupo de Teatro Sol. Tratava-se de um teatro improvisado, até por que eles não sabem ler nem escrever.

LM: E depois, como você conseguiu divulgar a sua idéia? Que tipo de apoio você recebeu?

RE: No governo Sarney, eu recebi apoio da Teresa Amaral. Foi quando demos uma arrancada no projeto e eu fui apresentar o grupo nos Estados Unidos e na Colômbia. Então nós transformamos essa experiência num projeto, que consistiu em um curso de arte e educação que foi levado a várias capitais do Brasil. Eu viajei com os meninos por todo o país, mostrando esse teatro e ensinando as pessoas a fazer teatro. Por exemplo: aquele professor que nunca sentou no chão começou a sentar no chão para trabalhar com os meninos. Enfim, usamos a arte como recurso, neste projeto chamado Arte e Vida. Nós passávamos a experiência que possuíamos para os professores e para profissionais de outras áreas. Fazíamos um curso bem prático. Eu levava os meninos do teatro... Uma vez eu conheci uma professora que estava com um menino há dois meses e nunca tinha ouvido a voz dele. Até porque ela estava lá, tentando o ensino formal... Ela atrás da mesa e ele sentado numa carteira. Quando eles começaram a dançar, a desenhar, o menino conseguiu falar. A arte possibilita isso. Bem, um tempo depois eu fui apresentar o grupo num festival na Espanha e quando voltei fui mandado embora da instituição, visto que eles não estavam satisfeitos comigo e nem eu com eles.

LM: Bem, mas pelo que você relata, seu trabalho era importante. Então porque eles não estavam satisfeitos com você?

 

RE: Eu fazia um trabalho interessante, mas ao mesmo tempo eu incomodava porque eu  fazia o trabalho muito mais fora do que dentro da instituição. Eu recebia em média um convite por mês para apresentar o teatro. Eu abri um Congresso Latino-Americano de Relações Públicas em Florianópolis, eu abri um Congresso Mineiro de Odontologia... Ás vezes eu saía daqui às 10 da noite, viajava até Londrina, apresentava o teatro às 6 da tarde e voltava às 11 para Niterói. E eu ganhava apenas um salário mínimo para fazer este trabalho. Aí chegou uma hora que ficou impraticável. Quando eu cheguei da Espanha e fui demitido, eu procurei o Circo Voador. Este projeto que eu tenho hoje no SESC, eu levei para o Circo Voador. Foi quando o Circo Voador brigou com a Prefeitura e a idéia não foi pra frente.

LM: E como é o seu trabalho no SESC nos dias atuais?

RE:   O SESC está cedendo o espaço e eu estou recebendo alunos deficientes mentais para fazer este trabalho de teatro. Eu recebo alunos de qualquer instituição, eu não sou funcionário do SESC. O SESC me cede o espaço e dá uma bolsa à cinco atores deficientes. Eu estou até procurando um patrocínio para continuar fazendo este trabalho. São alunos de várias instituições que vão ao SESC toda terça-feira de 14 às 17 horas para fazerem atividades de teatro.


LM: Na hora de buscar divulgação ou patrocínio, você tem encontrado muitas portas fechadas pelo fato dos atores serem deficientes?

RE:   Na maior parte das vezes é muito complicado. Por exemplo: eu estou procurando patrocínio. Então, quando você chega num lugar, as pessoas logo pensam: " Coitadinho deles..." . As pessoas não acreditam que isso pode ser uma coisa séria e legal, sabe!?! E este teatro tem características bem diferentes: primeiro que você vê atores que você não está acostumado a ver. Segundo que você vai ficar sentado uma hora ouvindo alguém falar da vida dele. Alguém que você acha que não pensa, alguém que você não sabe absolutamente nada de sua vida. As pessoas têm uma imagem muito ruim do deficiente, é o incapaz, o doente, o coitadinho... E as empresas não querem associar sua imagem ao nosso trabalho porque acreditam que  ficaria uma imagem ruim para eles... É difícil!     

LM : E como eles lidam com essas dificuldades?

RE: Na verdade eles têm idéia de que a gente precisa de ajuda. Há famílias formadas por pessoas idosas e eu tenho compromisso com eles. Tem ocasiões que eu preciso levá-los em casa. é comum nós fazermos uma apresentação e não sabermos o horário que ela vai terminar. Eles sabem que seria legal a gente ter um carro, eles têm esta percepção, mas é diferente da gente...

LM: E como eles reagem às reações positivas das pessoas?

RE: Eles ficam muito felizes. Eles vinculam  : "Se a gente fizer legal, se nós formos um bom grupo, nós vamos receber um próximo convite".Quando alguém elogia ou faz um convite, fica para eles aquela sensação: "a gente agradou" .Eles ficam muito felizes.

LM: Eu acho interessante que o seu trabalho faz estes meninos pensarem, e acho ótimo você usar a arte para isso.

RE: É.   Tem meninos que cortam envelopes. É um trabalho rotineiro. Eu não teria paciência para fazer isto e nem você. É um trabalho que não acrescenta à inteligência deste menino. Eles não criam  envelopes, eles cortam envelopes. Eu tenho algumas restrições à isto. Por exemplo: outro dia nós fizemos uma apresentação no Colégio Assunção. Então nós preparamos  algo sobre a Campanha da Fraternidade/2002 (Por Uma Terra Sem Males). Este teatro é montado com eles. A gente senta e vai bolando personagens, encaixando os atores. A gente têm uma idéia central e à partir dela a gente vai criando situações. E qual o referencial de índio que nós temos? O Araribóia! Então a gente criou um personagem que era o Araribóia. Ele ficava paradão e tinha um filho que queria virar estátua... Foi muito legal! Dois dias depois uma menina já chegou com o nome do Araribóia: Martim Afonso de Souza. Então você incentiva o aluno a pensar, pesquisar, discutir...  Eles passam a ver televisão, a ouvir rádio... A gente não está isolando este menino do mundo, pelo contrário: estamos ligando ele ao mundo. Os meninos não podem ser tratados como imbecis, ou como incapazes. Eles precisam ser tratados como pessoas que têm opinião, pessoas que pensam.

LM: E como é o relacionamento entre eles? Costumam  acontecer brigas? 

RE: Eles acabam formando um grupo de trabalho e os problemas deles são parecidos com os nossos. Uns são mais simpáticos, outros não... Quando eu trabalhei na APAE, eu tinha meninos com enormes problemas de comportamento. Eles furavam pneus, batiam em mulheres, etc... E quando eu instalei o grupo de teatro, aqueles meninos complicados, brigões, passaram a pensar sobre isso. " Eu só vou poder participar do grupo se eu for um cara legal. E eu vou participar deste grupo porque eu quero viajar, passear, me divertir, este grupo é um grupo legal e eu preciso ser legal para fazer parte dele.

LM: Mas de vez em quando ainda não acontecem problemas deste tipo?

RE: Neste momento eu tive que chegar para o menino e explicar: " Você não precisa ter uma reação dessas, por que você faz parte de um grupo que não precisa disso.

LM: Mas especificamente falando da relação entre eles, já aconteceu algum problema mais sério?

RE: Eles até brigam, mas a questão da raiva e do ódio, acontece de maneira bem diferente, sabe?!? Nós às vezes somos muito rancorosos, se eu brigar com você, provavelmente nós não vamos mais nos falar. Já eles, brigam agora e daqui a pouco estão se beijando...

LM: Então recapitulando: Você me contou que o Grupo Sol terminou e depois de um tempo você o retomou com outro nome: Grupo Teatro Novo. Certo? 

RE: Sim. O Sol acabou em 1994 e em 1999 eu retomei este trabalho. Eu passei a buscar alguns deles em suas casas após suas atividades e depois consegui o espaço no SESC e o Cacilda Becker.

LM: Os temas de suas peças sempre são relacionados com situações reais da vida dos atores?

 

RE: Sim, isto é uma preocupação. Não tem sentido pegar uma história que não tenha nada a ver com eles e fazer deles bonecos para estarem lá somente repetindo o que eu quero. É por aí...

LM: Ok, Rubens! Muito Obrigado!

RE: Eu que agradeço, Leonardo. .


Obs: Para quem não conhece, ele é descendente de Carlos Gripp Jr (bisneto), de Alto Jequitibá-MG

_ Essa entrevista foi publicada em um jornal eletrônico de Alagoas que já não está mais on-line

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