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Leonardo Melo (LM): Conte-me um pouco da história do
Grupo Teatro Novo.
Rubens Emerick (RE): O Grupo
Teatro Novo é um grupo de teatro formado por deficientes mentais.
Este trabalho começou em 1983 com outro nome: Grupo Sol. Eu fui
trabalhar na APAE, mas chegando lá, não consegui desenvolver um
trabalho de psicologia. Eu comecei como estagiário de Educação
Física. Logo depois, porém, surgiu uma vaga e eu me tornei psicólogo
da APAE. Uma cena que eu via muito era os pais trazendo os filhos de
mãos dadas. Isto desde crianças pequenas até os maiores de 16, 17
anos. Então eu achei necessário reverter um pouco este quadro. Então
eu comecei a sair quase que diariamente com eles na rua. No
máximo dois ou três. As escolas fazem isso com grupos grandes, mas
eu não podia fazer isso com eles porque chamam a atenção das
pessoas. Imagine só você entrar com 20 portadores de Síndrome
de Down num lugar qualquer. É complicado. Quando você sai com um ou
dois, as pessoas pensam que eles são seus filhos, irmãos ou primos.
Com isso não chamamos muita atenção. E também acaba sendo melhor
para eles devido à maior possibilidade de aprenderem alguma coisa, é
bem mais fácil ensinar dois do que ensinar vinte. Então eu procurava
ensinar coisas tipo como atravessar a rua, como se paga uma conta no
banco, como se entra num ônibus e outras coisas deste tipo. Então,
toda vez que eu chegava da rua, eu juntava o pessoal todo e nós
conversávamos sobre o que víamos. A situação que a gente passava na
rua, a gente transformava em psicodrama, em teatro. Foi uma coisa
bem natural, com essas conversas, nós acabamos fundando o Grupo de
Teatro Sol. Tratava-se de um teatro improvisado, até por que eles
não sabem ler nem escrever.
LM: E depois, como você
conseguiu divulgar a sua idéia? Que tipo de apoio você recebeu?
RE: No governo Sarney, eu recebi
apoio da Teresa Amaral. Foi quando demos uma arrancada no projeto e
eu fui apresentar o grupo nos Estados Unidos e na Colômbia. Então
nós transformamos essa experiência num projeto, que consistiu em um
curso de arte e educação que foi levado a várias capitais do Brasil.
Eu viajei com os meninos por todo o país, mostrando esse teatro e
ensinando as pessoas a fazer teatro. Por exemplo: aquele professor
que nunca sentou no chão começou a sentar no chão para trabalhar com
os meninos. Enfim, usamos a arte como recurso, neste projeto chamado
Arte e Vida. Nós passávamos a experiência que possuíamos para os
professores e para profissionais de outras áreas. Fazíamos um curso
bem prático. Eu levava os meninos do teatro... Uma vez eu conheci
uma professora que estava com um menino há dois meses e nunca tinha
ouvido a voz dele. Até porque ela estava lá, tentando o ensino
formal... Ela atrás da mesa e ele sentado numa carteira. Quando eles
começaram a dançar, a desenhar, o menino conseguiu falar. A arte
possibilita isso. Bem, um tempo depois eu fui apresentar o grupo num
festival na Espanha e quando voltei fui mandado embora da
instituição, visto que eles não estavam satisfeitos comigo e nem eu
com eles.
LM: Bem, mas pelo que você
relata, seu trabalho era importante. Então porque eles não estavam
satisfeitos com você?
RE: Eu fazia um trabalho
interessante, mas ao mesmo tempo eu incomodava porque eu fazia
o trabalho muito mais fora do que dentro da instituição. Eu recebia
em média um convite por mês para apresentar o teatro. Eu abri um
Congresso Latino-Americano de Relações Públicas em Florianópolis, eu
abri um Congresso Mineiro de Odontologia... Ás vezes eu saía daqui
às 10 da noite, viajava até Londrina, apresentava o teatro às 6 da
tarde e voltava às 11 para Niterói. E eu ganhava apenas um salário
mínimo para fazer este trabalho. Aí chegou uma hora que ficou
impraticável. Quando eu cheguei da Espanha e fui demitido, eu
procurei o Circo Voador. Este projeto que eu tenho hoje no SESC, eu
levei para o Circo Voador. Foi quando o Circo Voador brigou com a
Prefeitura e a idéia não foi pra frente.
LM: E como é o seu
trabalho no SESC nos dias atuais?
RE: O SESC está
cedendo o espaço e eu estou recebendo alunos deficientes mentais
para fazer este trabalho de teatro. Eu recebo alunos de qualquer
instituição, eu não sou funcionário do SESC. O SESC me cede o espaço
e dá uma bolsa à cinco atores deficientes. Eu estou até procurando
um patrocínio para continuar fazendo este trabalho. São alunos de
várias instituições que vão ao SESC toda terça-feira de 14 às 17
horas para fazerem atividades de teatro.
LM: Na hora de buscar
divulgação ou patrocínio, você tem encontrado muitas portas fechadas
pelo fato dos atores serem deficientes?
RE: Na maior parte das
vezes é muito complicado. Por exemplo: eu estou procurando
patrocínio. Então, quando você chega num lugar, as pessoas logo
pensam: " Coitadinho deles..." . As pessoas não acreditam que isso
pode ser uma coisa séria e legal, sabe!?! E este teatro tem
características bem diferentes: primeiro que você vê atores que você
não está acostumado a ver. Segundo que você vai ficar sentado uma
hora ouvindo alguém falar da vida dele. Alguém que você acha que não
pensa, alguém que você não sabe absolutamente nada de sua vida. As
pessoas têm uma imagem muito ruim do deficiente, é o incapaz, o
doente, o coitadinho... E as empresas não querem associar sua imagem
ao nosso trabalho porque acreditam que ficaria uma imagem ruim
para eles... É difícil!
LM : E como eles lidam com
essas dificuldades?
RE: Na verdade eles têm idéia de
que a gente precisa de ajuda. Há famílias formadas por pessoas
idosas e eu tenho compromisso com eles. Tem ocasiões que eu preciso
levá-los em casa. é comum nós fazermos uma apresentação e não
sabermos o horário que ela vai terminar. Eles sabem que seria legal
a gente ter um carro, eles têm esta percepção, mas é diferente da
gente...
LM: E como eles reagem às
reações positivas das pessoas?
RE: Eles ficam muito felizes. Eles
vinculam : "Se a gente fizer legal, se nós formos um bom
grupo, nós vamos receber um próximo convite".Quando alguém elogia ou
faz um convite, fica para eles aquela sensação: "a gente agradou"
.Eles ficam muito felizes.
LM: Eu acho interessante
que o seu trabalho faz estes meninos pensarem, e acho ótimo você
usar a arte para isso.
RE: É. Tem meninos que
cortam envelopes. É um trabalho rotineiro. Eu não teria paciência
para fazer isto e nem você. É um trabalho que não acrescenta à
inteligência deste menino. Eles não criam envelopes, eles
cortam envelopes. Eu tenho algumas restrições à isto. Por exemplo:
outro dia nós fizemos uma apresentação no Colégio Assunção. Então
nós preparamos algo sobre a Campanha da Fraternidade/2002 (Por
Uma Terra Sem Males). Este teatro é montado com eles. A gente senta
e vai bolando personagens, encaixando os atores. A gente têm uma
idéia central e à partir dela a gente vai criando situações. E qual
o referencial de índio que nós temos? O Araribóia! Então a gente
criou um personagem que era o Araribóia. Ele ficava paradão e tinha
um filho que queria virar estátua... Foi muito legal! Dois dias
depois uma menina já chegou com o nome do Araribóia: Martim Afonso
de Souza. Então você incentiva o aluno a pensar, pesquisar,
discutir... Eles passam a ver televisão, a ouvir rádio... A
gente não está isolando este menino do mundo, pelo contrário:
estamos ligando ele ao mundo. Os meninos não podem ser tratados como
imbecis, ou como incapazes. Eles precisam ser tratados como pessoas
que têm opinião, pessoas que pensam.
LM: E como é o
relacionamento entre eles? Costumam acontecer brigas?
RE: Eles acabam formando um grupo
de trabalho e os problemas deles são parecidos com os nossos. Uns
são mais simpáticos, outros não... Quando eu trabalhei na APAE, eu
tinha meninos com enormes problemas de comportamento. Eles furavam
pneus, batiam em mulheres, etc... E quando eu instalei o grupo de
teatro, aqueles meninos complicados, brigões, passaram a pensar
sobre isso. " Eu só vou poder participar do grupo se eu for um cara
legal. E eu vou participar deste grupo porque eu quero viajar,
passear, me divertir, este grupo é um grupo legal e eu preciso ser
legal para fazer parte dele.
LM: Mas de vez em quando
ainda não acontecem problemas deste tipo?
RE: Neste momento eu tive que
chegar para o menino e explicar: " Você não precisa ter uma reação
dessas, por que você faz parte de um grupo que não precisa disso.
LM: Mas especificamente
falando da relação entre eles, já aconteceu algum problema mais
sério?
RE: Eles até brigam, mas a questão
da raiva e do ódio, acontece de maneira bem diferente, sabe?!? Nós
às vezes somos muito rancorosos, se eu brigar com você,
provavelmente nós não vamos mais nos falar. Já eles, brigam agora e
daqui a pouco estão se beijando...
LM: Então recapitulando:
Você me contou que o Grupo Sol terminou e depois de um tempo você o
retomou com outro nome: Grupo Teatro Novo. Certo?
RE: Sim. O Sol acabou em 1994 e em
1999 eu retomei este trabalho. Eu passei a buscar alguns deles em
suas casas após suas atividades e depois consegui o espaço no SESC e
o Cacilda Becker.
LM: Os temas de suas peças
sempre são relacionados com situações reais da vida dos atores?
RE: Sim, isto é uma preocupação.
Não tem sentido pegar uma história que não tenha nada a ver com eles
e fazer deles bonecos para estarem lá somente repetindo o que eu
quero. É por aí...
LM: Ok, Rubens! Muito
Obrigado!
RE: Eu que agradeço, Leonardo.
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Obs: Para quem não conhece, ele é descendente de
Carlos Gripp Jr (bisneto), de Alto Jequitibá-MG
_ Essa entrevista foi publicada em
um jornal eletrônico de Alagoas que já não está mais on-line |